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5 de outubro de 2009

Coimbra, La Bohème

Estou farta da portada aberta sobre o rio, da fragilidade pesada do edifício, ingrato à História. Farta, farta, que me agarres e me faças resvalar, no momento derradeiro do toque.
Então puxa-me o cabelo, aperta com força a minha cintura, dançante e submissa a ti e a esse gesto de posse, confiante, que fazes ao atrair o meu corpo para o teu. Então beija-me o pescoço e morde-me com vontade, contra a parede ou na varanda do prédio gasto e fraco, ou no vão das escadas, até no corrimão. Então faz-me perder totalmente a cabeça, num devaneio prolongado; liberta-me. Liberta-me desta loucura contida.
Já passou o nosso tempo, faço é questão de te avisar que recuperas o tempo perdido quando quiseres. E é nesta cidade, eventualmente nossa um dia, que me meto a pensar nestas coisas.

30 de julho de 2009

Abre-se frente às portadas uma Coimbra encantada, muito cheia de vidas, de histórias e de História. Nós somos só mais dois a deixar legado, para depois passar testemunho e, os próximos que vierem, pensarem "quantos amantes antes de nós já aqui consumaram a plenitude da paixão?". E é disto que esta cidade vive: de amores, de perdições, delírios e paixões. De pena, de mágoa, de todas as incertezas mágicas sobre quem e por onde já aqui passou.
Uma brisa fresca balança os cortinados de duas janelas gigantes, ao sabor da nossa respiração; o pano entra no quarto e sai, como se espreitasse impaciente, olhando por nós na certeza de um desejo e na ânsia de uma investida. O rio atento perde-se na infinidade de uma corrente plena de calma, como sempre nos recebe.
Em sinal de aviso suspiramos os dois, braços abertos ao que aí vier. "Não demores muito tempo, amor - penso eu - que o tempo é precioso neste lugar, que não espera por ninguém porque está lotado de mais gente como nós, mas sem medo de arriscar". E como se me ouvisses pensar voltas a suspirar, e eu começo, inconscientemente, a sentir o teu coração no meu peito, as tuas mãos nas minhas, no meu corpo, na minha mente.
Lembro-me de te ver levantar decidido e investires sobre mim. Também me lembro do resto, mas isso ficou no segredo de quatro paredes de uma casa em Coimbra: para outros dois amantes se perguntarem o que se passou aqui, quando nós sairmos.

P.S.: A foto não é minha, mas também não sei de quem é. E estou em Coimbra, for my sake.

11 de julho de 2009


Eu aprendo rápido, amor, os movimentos da nossa paixão, o momento certo para o entrecorte das nossas respirações. Eu sei as palavras nas entrelinhas, por excelência, escondidas, os perigos inerentes a amar-te, os riscos por te ter. Quantos esqueletos guardas no armário, o sofrimento agarrado às vísceras ensanguentadas.
Aprende que eu sei tudo menos ouvir a tua alma. E isso só não sei porque não a tens, porque te livraste dela, porque fugiste dela.
Embarco neste rio que são os teus braços, infinitos, sem cais, sem porto. Poluído de mágoa, de ressentimentos. De remorsos por me teres deixado ir, cair, falecer, no clímax de tantos gestos falhados.
Inútil, é o que me chamas. Inútil, é o que tu és. Um inútil vagabundo nas ruas sujas da baixa de uma cidade qualquer sem nome, que me deixou partir, à deriva, alheia a emoções tuas, a palavras minhas. Inútil por não me teres posto a mão no ombro enquanto eu estava de costas, ainda perto de ti, a alucinar por uma ilha, um destino, puxando-me bruscamente até me virares, para te ver só a ti, amor, sem hipóteses. Sem ruelas por onde escapar, sem becos onde me esconder.
Sem alma, também eu.