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2 de novembro de 2010

Tasquinha do Sr.Chico I

O Sr.Chico é um homem simpático e humilde, visivelmente gasto pelos anos, mas sempre com uma disposição contagiante. Passeia a cabeleira branca pelo cafezito e lá vai cumprimentando, um a um, os estudantes vestidos de negro que por lá param. Geralmente é um sitio de paragem para beber café e descansar as pernas, antes de nos aventurarmos avenida acima; na altura das festas académicas recebe calorosamente motins de estudantes bêbedos, sôfregos de sede, de olhos raiados de sangue, sempre em grande alvoroço. Além da figura afável do Sr.Chico, que não deixa sair de lá ninguém mal bebido, o que atrai a clientela são os preços baixos - um moscatel para aqui, dois bagaços para o caminho, uma cerveja fresca para aconchegar o estômago e nem uma nota destrocamos.
Na consequência de mil palavras, entre choros ou risos e alguns desabafos mais recatados na mesa do canto, lá anda o Sr.Chico, aparentemente impassível, servindo quem chega e dando continuação à bebida de quem já lá está. Não se iludam! Na tasquinha do Sr.Chico não se come, o pessoal não quer saber disso. Quem o conhece sabe que, pedindo a primeira coisa, não cessa mais o levantar dos copos vazios, repostos por outros iguais, mas cheios, até à ordem de mudar a bebida ou de parar com o beberico. A nota na mesa e nem uma única palavra. Só o olhar expectante de quem quer o troco, que o Sr.Chico compreende tão bem e cumpre tão mecanicamente.
Tudo isto para que se compreenda que em Coimbra também há recato e humildade, que os estudantes sofrem e carregam nas capas pretas o fado melancólico dos séculos remotos. Escondem nos confins das vestes a solidão aconchegante que nunca os abandona, nem mesmo quando chegam a casa e se deitam bêbedos, na cama, de capa traçada e alma cheia, para dormirem no manto fúnebre de ilustres gentes antigas, depois de uma ida à tasquinha do Sr.Chico.

Grupo de estudantes, Coimbra, 1909

5 de outubro de 2009

Coimbra, La Bohème

Estou farta da portada aberta sobre o rio, da fragilidade pesada do edifício, ingrato à História. Farta, farta, que me agarres e me faças resvalar, no momento derradeiro do toque.
Então puxa-me o cabelo, aperta com força a minha cintura, dançante e submissa a ti e a esse gesto de posse, confiante, que fazes ao atrair o meu corpo para o teu. Então beija-me o pescoço e morde-me com vontade, contra a parede ou na varanda do prédio gasto e fraco, ou no vão das escadas, até no corrimão. Então faz-me perder totalmente a cabeça, num devaneio prolongado; liberta-me. Liberta-me desta loucura contida.
Já passou o nosso tempo, faço é questão de te avisar que recuperas o tempo perdido quando quiseres. E é nesta cidade, eventualmente nossa um dia, que me meto a pensar nestas coisas.

2 de outubro de 2009

Peace of mind

Daqui a 10 minutos estou na estação, e algumas horas depois chego a Coimbra. É a frase mais poética que sei dizer agora.

30 de julho de 2009

Abre-se frente às portadas uma Coimbra encantada, muito cheia de vidas, de histórias e de História. Nós somos só mais dois a deixar legado, para depois passar testemunho e, os próximos que vierem, pensarem "quantos amantes antes de nós já aqui consumaram a plenitude da paixão?". E é disto que esta cidade vive: de amores, de perdições, delírios e paixões. De pena, de mágoa, de todas as incertezas mágicas sobre quem e por onde já aqui passou.
Uma brisa fresca balança os cortinados de duas janelas gigantes, ao sabor da nossa respiração; o pano entra no quarto e sai, como se espreitasse impaciente, olhando por nós na certeza de um desejo e na ânsia de uma investida. O rio atento perde-se na infinidade de uma corrente plena de calma, como sempre nos recebe.
Em sinal de aviso suspiramos os dois, braços abertos ao que aí vier. "Não demores muito tempo, amor - penso eu - que o tempo é precioso neste lugar, que não espera por ninguém porque está lotado de mais gente como nós, mas sem medo de arriscar". E como se me ouvisses pensar voltas a suspirar, e eu começo, inconscientemente, a sentir o teu coração no meu peito, as tuas mãos nas minhas, no meu corpo, na minha mente.
Lembro-me de te ver levantar decidido e investires sobre mim. Também me lembro do resto, mas isso ficou no segredo de quatro paredes de uma casa em Coimbra: para outros dois amantes se perguntarem o que se passou aqui, quando nós sairmos.

P.S.: A foto não é minha, mas também não sei de quem é. E estou em Coimbra, for my sake.

8 de dezembro de 2008

Coimbra


Desci à rua na incerteza de contemplar algum olhar, só com a esperança de me alagar na vida que a chuva nos atira. O que encontrei foi uma corrente forte de água a descer, furiosa, pela rua abaixo, atropelando os meus sapatos de carneira na noite fria de Dezembro. E foi assim que me perdi, naquela Coimbra a transbordar de trauseuntes nus e pobres de espírito. Uma rua a subir, que parecia nunca mais ter fim, despertou a cólera em mim. Não é justo saber quando se sobe, mas não ter ideia do momento em que se desce, senão quando já não há uma restia de forças; mas mais injusto ainda é o peso desequilibrado entre o ascender e o descer. Temos que equilibrar isto. Eu sei que é difícil, mas temos - pensei eu quando, finalmente, cheguei ao cimo da rua.