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2 de dezembro de 2009

Quinta-feira, 00:23. Os comboios partem, já os últimos, carregados de gente cansada e desejosa de chegar a casa, para consolar o estomâgo numa sopa quente e aquecer as mãos à lareira com a família. Lá fora é quase neve, nem sei se o fumo que sai da minha boca é do tabaco ou do ar frio, mas entretenho-me a brincar com ele quando, de súbito, me apareces como uma sombra do lado direito. De nariz frio, expressões fechadas, olhos vermelhos e baços, com o casaco até ao queixo. Pedes-me um cigarro com maus modos e depois deitas-te no banco, com a cabeça no meu colo, como se eu fosse tua mãe e tivesse a obrigação de ouvir tudo da tua boca sem ralhar contigo.
Sem uma palavra fecho-te os olhos e passo-te a ponta dos dedos suavemente pelas pálpebras, como tu gostas, e instantaneamente adormeces. Fico ali, a ver-te dormir, nessa calma muda de quem se consola com pouco. O ar frio a sair-te do nariz, a enrolar-se, a subir... para depois se desvancer à frente dos meus olhos, misturado com o meu.
Fumo mais um cigarro ou dois, parte mais um comboio ou dois: Campanhã, São Bento... Ficamos ali imóveis; tu deitado em cima das minhas pernas, como um menino mimado mas com a barba por fazer e eu à espera da hora e do comboio certo, situada algures no entretanto de uma chegada e uma partida, com medo de te acordar porque podes ficar de mau humor. Passo-te outra vez os dedos pelos olhos e desço até ao pescoço, tapado pelo casaco. Tenho vontade de te tocar na pele nua, tenho saudades tuas. Já não és o mesmo desde que nos separamos pela primeira vez - nasceu um monstro frio e calculista dentro de ti, amante da vaidade e da bajulação; uma frontalidade sádica, uma revolta interna de sentimentos que não queres sentir.
Tu amas-me. E para mim basta a ternura que me invande quando adormeces subitamente ao toque das minhas mãos, as palavras estão gastas e fartas e eu já não acredito nelas. Se soubesses aquilo que transmides enquanto dormes nunca mais fechavas os olhos, nem que fosse só para descansar a vista, com medo de desarmar e de cair, que vejam que também és fraco e tens medo.
Quando tinha que me despedir de ti e ir para a minha casa, levava comigo o último beijo, carregava-o nas mãos pelas escadas acima, e deitava-me com a tranquilidade que ele me dava. Agora já não temos que fazer isso, deixamos perder a magia da despedida; já nem há beijos de bom dia, já não há nada. Porque hoje somos dois desgraçados, que dormem à vez numa estação qualquer, com medo que lhe roubem a roupa que têm no corpo, porque afinal é só mesmo isso que nos resta. O que somos um para o outro temos cravado no coração e isso, nem os bichos que nos hão-de comer um dia quando morrermos, vão destruir. Permanecemos inertes numa estação qualquer, à vez também, e apanhámos a mania que há uma hora certa e um local certo para ir. Sente-se, não está escrito no horário digital pregado à parede, nem se consegue decifrar na bandeirola do chefe de estação. Chegou um agora, vai para a cidade invicta. Tenho a sensação que está na altura, mas acho que tu não concordas: continuas imóvel ao meu colo, não tenho coragem de me mexer. Deixa, apanhamos outro - há mais horas certas, e comboios.

11 de julho de 2009


Eu aprendo rápido, amor, os movimentos da nossa paixão, o momento certo para o entrecorte das nossas respirações. Eu sei as palavras nas entrelinhas, por excelência, escondidas, os perigos inerentes a amar-te, os riscos por te ter. Quantos esqueletos guardas no armário, o sofrimento agarrado às vísceras ensanguentadas.
Aprende que eu sei tudo menos ouvir a tua alma. E isso só não sei porque não a tens, porque te livraste dela, porque fugiste dela.
Embarco neste rio que são os teus braços, infinitos, sem cais, sem porto. Poluído de mágoa, de ressentimentos. De remorsos por me teres deixado ir, cair, falecer, no clímax de tantos gestos falhados.
Inútil, é o que me chamas. Inútil, é o que tu és. Um inútil vagabundo nas ruas sujas da baixa de uma cidade qualquer sem nome, que me deixou partir, à deriva, alheia a emoções tuas, a palavras minhas. Inútil por não me teres posto a mão no ombro enquanto eu estava de costas, ainda perto de ti, a alucinar por uma ilha, um destino, puxando-me bruscamente até me virares, para te ver só a ti, amor, sem hipóteses. Sem ruelas por onde escapar, sem becos onde me esconder.
Sem alma, também eu.