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5 de outubro de 2009

Coimbra, La Bohème

Estou farta da portada aberta sobre o rio, da fragilidade pesada do edifício, ingrato à História. Farta, farta, que me agarres e me faças resvalar, no momento derradeiro do toque.
Então puxa-me o cabelo, aperta com força a minha cintura, dançante e submissa a ti e a esse gesto de posse, confiante, que fazes ao atrair o meu corpo para o teu. Então beija-me o pescoço e morde-me com vontade, contra a parede ou na varanda do prédio gasto e fraco, ou no vão das escadas, até no corrimão. Então faz-me perder totalmente a cabeça, num devaneio prolongado; liberta-me. Liberta-me desta loucura contida.
Já passou o nosso tempo, faço é questão de te avisar que recuperas o tempo perdido quando quiseres. E é nesta cidade, eventualmente nossa um dia, que me meto a pensar nestas coisas.

5 de julho de 2009

Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a face última das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível. Nesta casa enorme e deserta, nesta noite ofegante, neste silêncio de estalactites, a lua sabe a minha voz primordial. Venho à varanda e debruço-me para a noite. Uma aragem quente banha-me a face, os cães ladram tão longe desde o escuro das quintas, fremem no ar os insectos nocturnos. (...) E outra vez agora me deslumbra, em alarme, a presença iluminada de mim a mim próprio, o eco longínquo das vozes que me trespassam. Como é difícil, miraculoso, pensá-lo. Quanta coisa aprendi e sei e está aí à minha disposição quando dela preciso. Mas esta simples verdade de que estou vivo, me habito em evidência, me sinto como um absoluto divino, esta certeza fulgurante de que ilumino o mundo, de que há uma força que me vem de dentro, me implanta na vida necessariamente, esta totalização de mim a mim próprio que não me deixa ver os meus olhos, pensar o meu pensamento, porque ela é esses meus olhos e esse meu pensamento, esta verdade que me queima quando vejo o absurdo da morte, se pretendo segurá-la em minhas mãos, revê-la nas horas do esquecimentos, foge-me como fumo, deixa-me embrutecido, raivoso de surpresa e de rídiculo....
Aparição, Vergílio Ferreira