Mostrar mensagens com a etiqueta mãos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta mãos. Mostrar todas as mensagens

10 de outubro de 2009

Quero ver como é vais olhar para mim logo à noite, quando eu aparecer de surpresa na sala, e tu desprevinido, vais sorver a sopa muito depressa, e deixar fugir as batatas do prato. Recusas a sobremesa e o café e sais a correr desvairado para um sítio onde saibas que não te encontrarei. Pois eu vou surpreender-te outra vez, não te esqueças que conheço todos os recantos onde te escondes.
Sei que vou dar contigo numa tasca com mais de vinte anos, com cerveja e putas baratas, no entanto, deslocado, alheio a todas as mulheres com meias de rede e push-up's, de peitos salientes quase colados à tua cara a oferecerem-te sexo fácil e barato - pelo menos é o que elas dizem. E tu vais dizer que não, porque dispensas imaginar a minha cara no corpo de uma puta, ou uma puta com a minha cara. Tu e a tua ética incorruptível. Mas afinal é isso que eu sou nas tuas mãos: uma puta, mas só para ti. Não preciso do peito saliente nem de te cobrar uma boa noite na cama. Não cheiro a imitações da Cacharrel nem me insinuo para ti ao teu colo. Tu simplesmente vens e perdes os sentidos comigo. Mas no fim pedes para fingirmos que não se passou nada, como uma prostituta.

8 de agosto de 2009

Nenhum homem me agarra como tu, nenhum me beija como tu, nenhum faz amor comigo como tu. Era isso que querias ouvir?! Conheço as tuas mãos no meu corpo a milhas de distância, e não há repulsa em mim que não cresça das entranhas até à boca só de pensar que outro ser me possui. É inevitável entregar-me aos braços de alguém sem ter o teu nome no pensamento, o teu corpo impregnado no meu, uma sublime submissão ao Deus dará. Um irracional desejo, que me arde as visceras de ciúme, de pertença, de tudo o que poderes imaginar. Um sentimento tão paradoxal quanto nós, revisto em analepse todos os dias que me entrego a ti numa utopia doente, carregada de tragédia, como eu gosto e me faz sentir plena.
Acalma esta revolução interior de musculos e emoções, fisicamente psicológica, protegida ao abrigo de uma relação destructiva e deliciosa, da qual vivo e respiro. E me transponho para outro nível.

10 de junho de 2009

É dificil ser o ponto de viragem de alguém. Como um livro, em que és o escritor, eu sou uma personagem, que tu não sabes onde encaixar mas precisas, porque o perfil é bom, o papel também, mas enssencial e principalmente porque eu existo. Quer queiras quer não.
Foram as tuas mãos erroniamente direccionadas que se cravaram no meu corpo, como lapas, e agora é a pele que não as deixa sair.
Percorremos mil caminhos diferentes e todos eles foram dar ao mesmo ponto de partida, que és tu a tomares-me nua nos braços, a cortares-me a respiração com os braços à volta do pescoço. a investires brutalmente contra o meu corpo frágil, sensível. Qual amor macabro o que me dás.
"E bate-me!" - grito eu cada vez que me agarras, porque assim sei que é fisicamente verdadeiro. Só assim sei quando estás a fazer amor e quando estás a foder comigo, pelo sabor das pancadas.

1 de dezembro de 2008

Constrangimentos

Não há nada mais forte que o estrondo de dois corpos a caírem, suados, na suavidade branca de um lençol sujo de prazer. É caírem assim, leves, delicados, envoltos, ao som nostálgico da chuva a bater, pesada, no chão da rua. O mergulhar num silêncio ensurdecedor, só de espasmos, para ver o real no irreal.
Se é só o pecado que nos deixa soltos, de mão aberta para receber o frio, o calor, a neve e o ferver, então que vivamos só de pecado: atirar-me-ei para o vazio que és tu na esperança precária de algo mais envolvente. Se me podes dar o gosto salgado de uma pele por percorrer será tolice não experimentá-la por uma mera questão de princípios.
Peço-te apenas que não me largues enquanto eu atravesso a ponte que nos separa. Continua, pelo menos a fingir que estás no último andar do prédio e que não deixas que ninguém desate a corda que faz de meu caminho. Quais funâmbulos, quais quê?! Não existe funâmbulismo no pecado.

24 de novembro de 2008

Não abras mais essa porta



Senti a firmeza com que me agarraste nas mãos, um dia, desvanecer. Olhei, horrorizada, todos os sentimentos de pertença escorrerem-me, silenciosos, por entre os dedos, como a areia fina que pisaste comigo numa tarde de devaneios.
Vi o buraco fundo que cavaste - e foram três facadas no coração por cada memória que enterraste, furioso.
Doeu o desprezo, o pisar no chão, o cemitério da nossa paixão; doeu a chegada de um outro corpo, o bater forte das lembranças no piso duro da vida. Mas o que doeu mais foi ver-te sofrer pela mesma causa que eu, e a porta fechada na minha cara.





"E uma febre e um vácuo que há em mim
Confessa-me já morto... Palpo, em torno
Da minha alma, os fragmentos do meu ser
Com o hábito imortal de perscrutar-me."
Fernando Pessoa