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19 de junho de 2009

A minha parte preferida do verão é a brisa da madrugada. O calor infernal da tarde desvanece ao sabor do passar lento dos ponteiros do relógio, e por volta das 4 da manhã traduz-se só numa leve - muito leve - brisa. Deitada ao relento, na minha varanda, enquanto observava atenta o fumo do cigarro desaparecer, esquecido, noite dentro, comecei a pensar na razão da nossa existência.
Eu chamo-nos paixão, desejo, ardor, intensidade, prazer, vício. Chamo-nos inferno, doce inferno, loucura.
Sou geralmente uma pessoa exigente, e portanto perfeitamente disponível para me entregar às obrigações da tresloucada exigência que tu és. Porque é isso que conta, a disponibilidade com que me entrego ao esplendor das tuas investidas.
Não sou comprometida, não aceito o sexo como um motor de combustão para (re)acender um banal sentimento de amor, muitas vezes atrelado a uma cega obsessão. Vou, faço, sinto e gosto, tudo isto num só impulso, de uma só assentada. Da próxima vez é uma outra causa que me move, e um punhado de novas sensações percorre a minha alma, nunca vacilante às investidas do prazer.
Fazes-me bem. Apoio-me nesta incerteza certa, paradoxal e insegura. De linhas curvas mas visibilidade recta. Entregue só, e só, à carne, ao físico e fazes-me sentir viva. Tenho sempre uma razão que não conheço para ir ao teu encontro, e depois, quando me convertes a uma devota amante do teu corpo, fazes-me cair, suave na cama e uma iluminação que me compensa, suponho, acende-me o espírito e mostra-me porquê.
Aceito que seja transtornante o móbil que nos conduz, é mais além.

1 de dezembro de 2008

Constrangimentos

Não há nada mais forte que o estrondo de dois corpos a caírem, suados, na suavidade branca de um lençol sujo de prazer. É caírem assim, leves, delicados, envoltos, ao som nostálgico da chuva a bater, pesada, no chão da rua. O mergulhar num silêncio ensurdecedor, só de espasmos, para ver o real no irreal.
Se é só o pecado que nos deixa soltos, de mão aberta para receber o frio, o calor, a neve e o ferver, então que vivamos só de pecado: atirar-me-ei para o vazio que és tu na esperança precária de algo mais envolvente. Se me podes dar o gosto salgado de uma pele por percorrer será tolice não experimentá-la por uma mera questão de princípios.
Peço-te apenas que não me largues enquanto eu atravesso a ponte que nos separa. Continua, pelo menos a fingir que estás no último andar do prédio e que não deixas que ninguém desate a corda que faz de meu caminho. Quais funâmbulos, quais quê?! Não existe funâmbulismo no pecado.