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7 de outubro de 2009

É fácil perder os sentidos, cair de joelhos aos teus pés, desfazer-me em desculpas inúteis e carregar a culpa de tudo o que (não) fiz de mal. Implorar-te tornou-se um gesto banal e é vão aos teus olhos porque tudo o que é trivial te cansa, sempre foste assim. E eu sei que se hoje somos dois estranhos é porque continuas a mesma criança impaciente, que só está bem onde não está. Nem encontro palavras para te descrever, por seres tanta coisa ao mesmo tempo, e se os segundos são poucos... Era bom que escolhesses apenas um defeito para teres, não gosto de te ver carregado de conotações, que ainda por cima me vêm dar trabalho é a mim.
Acabaste por te tornar um monstro que eu amo de dentro para fora, um sentimento latente com o qual aprendi a viver sem que interferisse no meu dia-a-dia. Já não me constrange olhar para as paredes contra às quais me beijaste há muito tempo, nem pisar o chão no qual me ajoelhei por ti. As palavras que te disse repito-as sem embaraço, e as camisolas que me arrancaste violentamente do corpo já não cheiram a ti, por isso uso-as sem pensar que existes. Não me apetece organizar fotografias, nem faço questão de as ter, só não me apetece apagá-las; rasguei o diário, queimei as cartas e fechei a porta. Só que ainda te amo.

16 de julho de 2009

A minha surpresa foi um toque na campainha, o teu toque. Uma voz arrastada no interlocutor, o som irritante da porta a abrir, pesada, lá em baixo. Um elevador a subir assustadoramente, e a ausência de palavras. Assustei-me também com a falta de um sentimento positivo, de pertença ou aconchego, ou qualquer coisa do género. Só uma assombrosa sensação de vazio, de indiferença perante o homem que mais me amava na vida e que dava tudo por um sorriso meu, só que fosse. O chegares sem dizer nada, a brutalidade da investida contra mim, os braços fortes à minha volta. Custou. A redenção a que me permiti, e a dedicação com que me possuíste, mesmo com o alheamento espelhado no meus olhos. Divaguei durante todos os minutos, os segundos daquela noite. Sem me esforçar por mais, sem me preocupar que notasses. Custou. Deitar-me nos lençóis sujos de prazer, molhados de paixão, amarelos de fumo e sexo. Um corpo cansado ao meu lado, do tanto que me amar lhe exige. Um intruso na cama, era assim que eu te sentia. E eu apática, inexpressiva, tão vazia e oca. Perdida nas ilusões do costume, de passado atado ao pescoço, com o nó cada vez mais apertado na garganta. Senti-me sem salvação, quase conformada com aquilo em que me tornei. Pus os olhos no tecto, na tentativa falhada de encontrar alguma saída familiar, mas nem isso me consolou. Durante tantos amantes os tectos sempre foram o meu ponto de fuga, a minha paz de alma. A consciência limpa, arrisco. Aprendi rápido as manhas falsas do prazer, só para não ficar sem nada, mas aquilo que eu realmente sempre quis, foi o meu amante verdadeiro. O único que me fez chorar no seu ombro, que me passou a mão na cabeça nas alturas mais difíceis. Aquele que me possuía na integra, que fazia antecipadamente o que eu só viria a pensar momentos depois. O que me lia os olhos, o nariz, a boca. Aquele a quem eu me dei plena, sem dúvidas e arremessos sem razão de ser. Quem eu nunca questionei, por uma vez que fosse, nem quando tinha motivos para isso. O homem que me teve de sempre, e para sempre, impotente nos braços, frágil no coração, cega nos olhos. Ofuscante nas fotografias, verdadeiramente rendida, perdida em afectos mil. É esse que eu não tenho, que eu perdi de tanto amar. Todos os outros são tentativas mal sucedidas de substituição, falsos alarmes de paixão, quedas desamparadas no chão. São memórias que não guardo uma vida inteira dentro de caixas, de placards, papéis, por entre cheiros e lugares. São só vidas humanas que vagueiam, pouco tempo, na minha vida.

24 de novembro de 2008

Não abras mais essa porta



Senti a firmeza com que me agarraste nas mãos, um dia, desvanecer. Olhei, horrorizada, todos os sentimentos de pertença escorrerem-me, silenciosos, por entre os dedos, como a areia fina que pisaste comigo numa tarde de devaneios.
Vi o buraco fundo que cavaste - e foram três facadas no coração por cada memória que enterraste, furioso.
Doeu o desprezo, o pisar no chão, o cemitério da nossa paixão; doeu a chegada de um outro corpo, o bater forte das lembranças no piso duro da vida. Mas o que doeu mais foi ver-te sofrer pela mesma causa que eu, e a porta fechada na minha cara.





"E uma febre e um vácuo que há em mim
Confessa-me já morto... Palpo, em torno
Da minha alma, os fragmentos do meu ser
Com o hábito imortal de perscrutar-me."
Fernando Pessoa