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29 de junho de 2009

Tal como eu parece que também a Terra decidiu desanuviar. Depois de dias e dias constantes de sol ardente, ar irrespirável, uma atmosfera carregada, chuveu laboriosamente durante a tarde, como um desabafo divino. Abri a persiana com medo que alguém ouvisse, a janela de par em par, e sentei-me a medo no parapeito da varanda. Como precaução levei uma manta comigo, qual o meu espanto quando reparo que voltámos à velha brisa, leve, suada, agradavelmente fugaz. Tenho a alma perturbada, consequência de um pensar incessante, rios de emoções que se cruzam a desaguar no mesmo mar, formando um estuário confuso, onde procurar significa uma agulha num palheiro; e eu sem vontade de me fazer à vida, preguiçosa, a deixá-las baralharem-se ainda mais.
Também preciso de descansar de tudo isto, mas as nuvens da minha cabeça quanto mais pesadas menos descarregam. Estou a entrar no culminar de muita coisa, que não sei onde vão parar. Chorar não sou capaz. Sou fria e directa demais para isso, mas preciso. Como escreveu Luís Soares no seu Regresso a Barcelona, fecho os olhos e nem assim encontro as lágrimas; deixo-me cair para o lado, sinto o aroma intenso das madeixas de cabelo que me caem sobre a cara, e sou só um corpo inerte, na posição fetal, sem qualquer consolo, num quarto vazio a cheirar a tabaco.

2 de dezembro de 2008

Gentle and kindly

Um dia não são dias. São horas e momentos, pessoas, emoções, tabaco e decisões. Um dia é um passo, é um alcançar, um chegar mais perto. Ultrapassar, perder, cair. Levantar e viver, respirar.
Um dia és tu, que me apanhas, que me agarras, me puxas e me beijas. A toda a hora da nossa paixão, perdidos nesta nossa existência circunstancial dependente. O forçar de um sorriso não é nada comparado com o forçar de uma lágrima, que não caí mas tem que cair, não escorrega mas tem que escorregar, não pesa MAS TEM QUE PESAR.
Há um riozinho que passa aqui perto, custumo vê-lo iluminado à noite, com os peixes perdidos na corrente e comigo perdida em ti, em cima da ponte que o atravessa. Quando a chuva ameaça, o teu sabor ainda é melhor, porque um beijo que é beijo dá-se debaixo de água.

15 de novembro de 2008

Crossed Roads

Não venhas. Não venhas para mim nesse passo apressado que eu tenho medo que tropeces um dia. E quero ter a certeza que cais redondo e firme no meus braços, sem um único deslize. Não venhas para mim nesse passo apressado, não venhas porque eu prometo meter o coração ao pescoço, preso com uma corda, para nao se perder, se abrandares esse passo perigoso.
Não venhas por favor, são mil anos que eu espero, são cinco milénios se for preciso - é o tempo que quiseres porque mereces todo o que há no mundo. E enquanto espero é o tempo que demora a adoçar estas lágrimas tão vermelhas do sangue que me corre nas veias e tão amargas do ódio que me consome a alma, quase no mesmo passo com que tu corres para mim.
Não venhas. Não venhas nesse passo apressado que eu não tenho tempo para apagar a marca que o erro me deixou na cama cá de casa, não venhas que os lençóis demoram a secar; não venhas com medo que a música acabe, que ela ainda agora começou.
Eu estou aqui, amor, uma morte inteira à tua espera. Que me tomes nos braços e me ames como outrora, com a intensidade ridícula de um sadismo quase hipócrita.
Não venhas. Não venhas para mim nesse passo apressado que tenho medo de ti. Meu amor.