
Sento-me de pernas à chinês na cama, como se o mundo me coubesse todo ao colo e olho pela janela gigante, sem cortinados, para uma cidade nostálgica. Uma leveza saborosa envolve-me o corpo, indolente num quarto de hotel, perdido em delírios. E penso em ti. Penso no quão perfeito ficavas no ponto de fuga deste quadro a preto e branco, para eu depois pintar, óleo na tela, e guardar-te por cima da minha cama em Portugal. Mas tu só vens aqui para me cegares e agarrares, destruir, perder, ferir, debilitar e trancar o meu correr de ideias. Afliges-me com investidas, perturbas-me com emoções, e depois pousas-me outra vez em lençois esbatidos, por tempos e amantes, com a chave do quarto ao lado, na mesa de cabeceira, e um tapete foleiro aos pés da cama. Durante todas essas horas eu deixo de ver, e a janela gigante parece tão pequenina que Barcelona é uma maquete. De repente acordo de ti e volto a olhar em volta. A maquete sou eu, e a cidade continua enorme, comigo rendida. Não sei se a ti, se a ela.