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21 de julho de 2009

Querida Barcelona


Sento-me de pernas à chinês na cama, como se o mundo me coubesse todo ao colo e olho pela janela gigante, sem cortinados, para uma cidade nostálgica. Uma leveza saborosa envolve-me o corpo, indolente num quarto de hotel, perdido em delírios. E penso em ti. Penso no quão perfeito ficavas no ponto de fuga deste quadro a preto e branco, para eu depois pintar, óleo na tela, e guardar-te por cima da minha cama em Portugal. Mas tu só vens aqui para me cegares e agarrares, destruir, perder, ferir, debilitar e trancar o meu correr de ideias. Afliges-me com investidas, perturbas-me com emoções, e depois pousas-me outra vez em lençois esbatidos, por tempos e amantes, com a chave do quarto ao lado, na mesa de cabeceira, e um tapete foleiro aos pés da cama. Durante todas essas horas eu deixo de ver, e a janela gigante parece tão pequenina que Barcelona é uma maquete. De repente acordo de ti e volto a olhar em volta. A maquete sou eu, e a cidade continua enorme, comigo rendida. Não sei se a ti, se a ela.

29 de junho de 2009

Tal como eu parece que também a Terra decidiu desanuviar. Depois de dias e dias constantes de sol ardente, ar irrespirável, uma atmosfera carregada, chuveu laboriosamente durante a tarde, como um desabafo divino. Abri a persiana com medo que alguém ouvisse, a janela de par em par, e sentei-me a medo no parapeito da varanda. Como precaução levei uma manta comigo, qual o meu espanto quando reparo que voltámos à velha brisa, leve, suada, agradavelmente fugaz. Tenho a alma perturbada, consequência de um pensar incessante, rios de emoções que se cruzam a desaguar no mesmo mar, formando um estuário confuso, onde procurar significa uma agulha num palheiro; e eu sem vontade de me fazer à vida, preguiçosa, a deixá-las baralharem-se ainda mais.
Também preciso de descansar de tudo isto, mas as nuvens da minha cabeça quanto mais pesadas menos descarregam. Estou a entrar no culminar de muita coisa, que não sei onde vão parar. Chorar não sou capaz. Sou fria e directa demais para isso, mas preciso. Como escreveu Luís Soares no seu Regresso a Barcelona, fecho os olhos e nem assim encontro as lágrimas; deixo-me cair para o lado, sinto o aroma intenso das madeixas de cabelo que me caem sobre a cara, e sou só um corpo inerte, na posição fetal, sem qualquer consolo, num quarto vazio a cheirar a tabaco.