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24 de fevereiro de 2010

Olhava fixamente a janela. Perdida na paz do céu escuro, que espreitava por entre as frestas de luz que os contornos do teu corpo não quebravam, e no fumo do cigarro a perder-se por entre o quarto.
Olhava fixamente a janela. E a tua presença inebriante só me metia zonza, e não me deixava escorrer o mais milimetrico dos pensamentos; e a indolência ávida da nossa existência, que me matava a cada segundo a mais que o tempo contava.
Olhava fixamente a janela.

5 de janeiro de 2010

Perfume

O cigarro que fumo antes de te ires embora fica sempre com o teu perfume, e isso ainda é o que me vale - até já tenho os dedos amarelos.

29 de junho de 2009

Tal como eu parece que também a Terra decidiu desanuviar. Depois de dias e dias constantes de sol ardente, ar irrespirável, uma atmosfera carregada, chuveu laboriosamente durante a tarde, como um desabafo divino. Abri a persiana com medo que alguém ouvisse, a janela de par em par, e sentei-me a medo no parapeito da varanda. Como precaução levei uma manta comigo, qual o meu espanto quando reparo que voltámos à velha brisa, leve, suada, agradavelmente fugaz. Tenho a alma perturbada, consequência de um pensar incessante, rios de emoções que se cruzam a desaguar no mesmo mar, formando um estuário confuso, onde procurar significa uma agulha num palheiro; e eu sem vontade de me fazer à vida, preguiçosa, a deixá-las baralharem-se ainda mais.
Também preciso de descansar de tudo isto, mas as nuvens da minha cabeça quanto mais pesadas menos descarregam. Estou a entrar no culminar de muita coisa, que não sei onde vão parar. Chorar não sou capaz. Sou fria e directa demais para isso, mas preciso. Como escreveu Luís Soares no seu Regresso a Barcelona, fecho os olhos e nem assim encontro as lágrimas; deixo-me cair para o lado, sinto o aroma intenso das madeixas de cabelo que me caem sobre a cara, e sou só um corpo inerte, na posição fetal, sem qualquer consolo, num quarto vazio a cheirar a tabaco.

3 de dezembro de 2008

Stronger, closer

E quando um sorriso quebra, a única solução é virar as costas e fechar os olhos. E se chorar, é baixinho, mas mesmo assim acho difícil. Não quero ouvir palavras sem sentido, as frases feitas já não me confortam. O que eu gosto é de te cair bruscamente nos braços, sem quês nem porquês, e deitar-me no soalho, a ouvir ranger a madeira enroscada em ti. Confundir o teu cheiro no intenso do tabaco e o teu sabor no amargo do whiskey, a perder-se no meu.
I'll be commin' home soon, to your love, to stay.

2 de dezembro de 2008

Gentle and kindly

Um dia não são dias. São horas e momentos, pessoas, emoções, tabaco e decisões. Um dia é um passo, é um alcançar, um chegar mais perto. Ultrapassar, perder, cair. Levantar e viver, respirar.
Um dia és tu, que me apanhas, que me agarras, me puxas e me beijas. A toda a hora da nossa paixão, perdidos nesta nossa existência circunstancial dependente. O forçar de um sorriso não é nada comparado com o forçar de uma lágrima, que não caí mas tem que cair, não escorrega mas tem que escorregar, não pesa MAS TEM QUE PESAR.
Há um riozinho que passa aqui perto, custumo vê-lo iluminado à noite, com os peixes perdidos na corrente e comigo perdida em ti, em cima da ponte que o atravessa. Quando a chuva ameaça, o teu sabor ainda é melhor, porque um beijo que é beijo dá-se debaixo de água.