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29 de junho de 2009

Saio do quarto abafado sem rumo, pelo corredor fora, e decido virar na segunda à direita. Dispo-me. A pele colada sobre si mesma, algumas gotas de suor escorrem indecisas costas abaixo. Olho para o espelho e vejo uma cara que não conheço - imaginava-me de outra maneira, não sei se pior ou melhor. Ligo somente a torneira da água fria. Cada movimento é acompanhado de um turbilhão de pensamentos. Ponho primeiro a ponta do pé direito, firme no tapete enrrugado. Os dois lá dentro e a água vai-me fazendo festinhas. Sinto-me plena.
Projecto a cabeça para trás e deixo-me inundar pela àgua que sai agora do chuveiro. Não me dou ao trabalho de suster a respiração, de fechar os olhos nem tenho cuidado com os ouvidos. Sinto a água invandir-me as narinas, numa corrida desenfreada até à garganta, onde parece mais quente. Uma sensação de afogamento. Os olhos ardem e eu sem coragem de os fechar. Doí-me a alma.
Penso numa forma evasiva de te expulsar de mim e da minha cama; sei que ainda lá estás à espera de mais. Não me apetece.
A água fria, os olhos latejantes, o gorgolejar da água na garganta, uma banheira tão vazia quanto a casa de banho. Um orgulho ferido, uma cicatriz no coração. A forma evasiva, tu no quarto.
Sai, por favor.

4 de dezembro de 2008

Rainning Winter

É Inverno a valer. Nesta altura a chuva queima e o sol congela.
O fumo de um cigarro já não se perde no ar leve do Verão, arrasta-se sim, pelas ruas acima, com o nevoeiro que pesa na atmosfera. É uma perseguição incessante, que só termina a sua busca nos dias plenos de Primavera, quando o Mundo já está cansado de fugir e deixa de se importar com os fantasmas que lhe correm atrás (para além do fumo).
Adoro o barulho de chapa que os pés fazem ao baterem, furiosos, nas poças de água. Hoje cheguei a casa mergulhada numa melancolia infindável, com o barulho do roçar das pernas uma na outra; cheguei no desconforto de um casacão preto e de uma mochila atulhada de trabalho. É todos os dias assim, mas às vezes custa menos - quando a ânsia de um dia que nunca mais chega não vem comigo até casa e me entra no hall sem pedir licença. Há força para enfrentar e vontade também, mas estou cansada. Dói não saber onde dói, ouvir as gotas baterem no telhado cá de casa, sentir quase furado o tecto que eu sei que me vai abrigar sempre. Mas no meio da chuva latejante eu ainda consigo distinguir a tua voz.