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13 de julho de 2011

Extrémités lâches

Conheço bem essa doença em que te deixaste embalar e sei que o teu amor por mim é tão atroz que só me queres nessa zona de conforto-ilusão. Perdi a conta aos dias que fiquei parada, a amar-te só, até entender, finalmente, que o que nos une é apenas uma patologia venenosa e fatal.
Hoje deixei de querer entender-te porque tudo em nós é demasiado vago e letal. Ameacei várias vezes essa pré-imagem que concebeste da minha alma e que durante tantos anos consumiste, mas cansei, de verdade, de ser esse ser inanimado nas tuas mãos. 
Dei-me muito (dei-me demais) a emoções que não eram minhas, até que descobri que era exactamente essa a minha fragilidade: a insensatez de outro, um outro... Revestir o meu corpo com o suor, o ofegar, a febre de outro não era aquilo que precisava para te perpetuar.
Finalmente, precisei apenas de um copo de vinho e um cigarro mal apagado para eternizar a chama em mim e nunca deixar fugir a paixão de ti. Encontrei, de costas para mim, esse olhar discreto que às vezes se cruza com o meu e descubro, nesse mesmo instante, a vergonha com que ele se lança a mim. Afinal não fui eu que errei - estás fora do meu campo de visão, enfim. 

Estradas do Alentejo 2007

23 de setembro de 2009

Hoje disseram-me: "eramos miúdos, ainda somos." - e eu levei isto mesmo a sério. Pareceu-me que estas palavras formaram a frase mais sábia de todos os tempos, sem espaço para Aristóteles ou Platão.
Afinal vivemos todos nessa fronteira entre os adultos e as crianças, sem sabermos bem o que somos, encarnando a pele ora de crescido ora de pequeno, conforme nos apetece. Na verdade crescemos muito, mas acabamos por ficar crianças na mesma. Continuamos a rir de coisas parvas, convencidos de que mete piada, numa espécie de emancipação involuntária. Parece-nos tanto doze anos, treze, alguns quinze ou dezasseis... Mas no final somos as mesmas crianças que há treze anos jogavam à mosca e à apanhada, e tinham o cabelo à tijela, cortavam o lábio na caixa de areia, e escreviam "merda" na parede de trás da escola com spray amarelo fluorescente. Somos o mesmo grupo que aprendeu a dizer "foda-se" a caminho da aula de ginástica, o das eastpacks às cores que proporcionavam sessões fotografia estúpidas nos bancos de pedra da escola dos grandes. Os do território onde havia cadáveres dos nossos antepassados, os dos "I love you" a corrector na parede do pavilhão da escola, do jogo tradicional desenhado a tinta no pátio da escola. Os das grandes festas no velho barracão de sempre, ou na mesma casa do lado de sempre, os da piscina às 2 da manhã, os incendiários de cozinhas. Os do primeiro golo de cerveja fotografado, do primeiro golo de sangria, dos jantares de anos num cubiculo absurdo, os da AE que oferecem lápis de pau; somos os parvos dos cigarros ao pé da cantina, os dos primeiros bafos juntos. Somos do tempo em que um maço de tabaco chegava para oito pessoas durante uma noite, das dormidas em massa nas Galveias. Há muito tempo atrás fomos os que saltavam o campo da bola antigo com medo de cães; os dos lanches, dos almoços, das dormidas e dos banhos na casa uns dos outros. Somos os primeiros amores uns dos outros, em todos os sentidos que alguém pode imaginar.
Hoje, nem sempre juntos, com gente a sair e a entrar, os laços perduram, tal como as recordações de uma vida e de uma infância feliz, que afinal ainda não acabou. Quase em cada canto do país há um bocadinho de nós, nada deixado ao acaso, para que Portugal tenha sempre presente o espírito daquilo que éramos e vamos ser sempre, independetemente de tudo.
Um dia, amigos, quando vos encontrar casados e com filhos, divorciados, viúvos ou solteiros, vamos abrir os braços e ser o porto seguro que sempre fomos uns para os outros. E eu acredito que o destino da nossa hora de almoço, ou das tardes de baldas às aulas, o destino da sueca e da lerpa, vai estar aberto para nós, com o dono já velhote e nós cheios de dores nos músculos. Sempre a cuidar uns dos outros e a rir de coisas sem graça nenhuma, crianças.

21 de julho de 2009

Querida Barcelona


Sento-me de pernas à chinês na cama, como se o mundo me coubesse todo ao colo e olho pela janela gigante, sem cortinados, para uma cidade nostálgica. Uma leveza saborosa envolve-me o corpo, indolente num quarto de hotel, perdido em delírios. E penso em ti. Penso no quão perfeito ficavas no ponto de fuga deste quadro a preto e branco, para eu depois pintar, óleo na tela, e guardar-te por cima da minha cama em Portugal. Mas tu só vens aqui para me cegares e agarrares, destruir, perder, ferir, debilitar e trancar o meu correr de ideias. Afliges-me com investidas, perturbas-me com emoções, e depois pousas-me outra vez em lençois esbatidos, por tempos e amantes, com a chave do quarto ao lado, na mesa de cabeceira, e um tapete foleiro aos pés da cama. Durante todas essas horas eu deixo de ver, e a janela gigante parece tão pequenina que Barcelona é uma maquete. De repente acordo de ti e volto a olhar em volta. A maquete sou eu, e a cidade continua enorme, comigo rendida. Não sei se a ti, se a ela.