23 de dezembro de 2009

Balance

Estou feliz aqui deitada. Estou feliz aqui deitada no sofá enorme, no meio da sala da casa quase vazia, como eu sempre gostei de ter as coisas. Estou feliz aqui deitada no sofá enorme, a ver o fumo do tabaco enronlar-se em cascata à minha frente, com a televisão desligada, o corpo despido e envolvido no lençol ainda com bocados de ti. Estou feliz, nesta tranquilidade, nesta paz, a ouvir correr a água do chuveiro e a adivinhar secretamente onde é que as gotas te caem, quentes, para te ferir a pele ao arrancar-te a capa suada que te teci, como uma aranha. Fico feliz só por saber que mais minuto, menos minuto, e vens de toalha enrolada à cintura, com a expressão naturalmente carrancuda, cheio de amor para me dar e... cá está. As costas pingam ainda, os pêlos das pernas perfeitamente alinhados, como que lambidos pela água... Estremece-me, inevitavelmente, de alegria saber que a casa de banho está inundada porque não tens cuidado, e o tapete ensopado que tanto me irrita, conduz-me a ti com uma estranha e doce raiva para te ralhar e depois cair desarmada, pesada, a braços contigo na cama.
Preenche-me abrir o olhos e ver, na primeira pessoa, que está tudo igual menos a água, e o chuveiro, e a casa de banho inundada, e tu. Tudo isso já saiu à muito tempo, mas é sinal de que ainda não estou louca, rever os farrapos de memórias que perduram de ti só de olhos fechados. Se os visse assim, tão reais e sensíveis, e próximos de mim, de olhos abertos, as notícias sobre o meu equilíbrio não eram assim tão boas.

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