Há quem caminhe por gosto, por futilidades; há quem caminhe porque é vádio e quem caminhe por amor: eu caminho pelas duas coisas. Porque sou louca, às vezes também, e dá-me para te perseguir rua abaixo.
Perco-te na imensidão das pessoas que andam estupidamente devagar, e que me irritam profundamente, porque eu preciso de te encontrar e não te deixar escapar por entre um homem mais alto ou distrair-me com uma criança a chorar, enquanto tu aproveitas e te metes por entre ruelas sinuosas. Se é de noite e vais sozinho, de passo apressado com medo que eu te apanhe nesta minha corrida desesperada, escondes-te em cada beco que encontras, seja ele qual for - esqueces-te que a respiração em noites frias de Inverno é traiçoeira e eu acabo por te encontrar.
Agarro-te contra a parede, e depois de te debateres contra mim, acabas por desarmar e apertas-me tu contra o teu corpo grande e alterado, ansioso e gelado. Descontrolas a respiração e suspendes o olhar no meu, brilhante e cansado. Já estás farto de olhar para mim; não sei o que é que pensas quando me inundas os olhos dessa maneira, reprovadora e ao mesmo tempo piedosa, mas mais parece que desistes de me afastar, tomas-me como um caso perdido, uma doida. Sei que por trás disso tens pena de mim, por isso é que me levas para casa, me dás chá quente, acendes a lareira, vestes-me as tuas t-shirts largas e russas, tapas-me com a manta e fazes-me festas na bochecha ligeiramente inclinada. Eu falo tempo sem fim, sem receber resposta ou qualquer reacção da tua parte, e por fim, já fatigada, adormeço calmamente - ao ritmo das batidas do teu coração.
Não me importo que aos teus olhos seja louca.