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15 de junho de 2010

Da minha alma pouco sei

Parar não é morrer, é só esse entre-corte que vai do pensar ao fazer. É a imensa distância que nos afasta a cabeça do coração, para o corpo poder processar e decidir qual deles assume a liderança.
Contigo o meu coração ganha sempre. Nesse só instante, tão curto e subtil, consegues agarrar-me e levar-me para a cama sem eu dar por nada. Quando desperto, com uma decisão plausível em mãos, pronta para ta atirar à cara e deixar-te de rastos, já estou debaixo de ti, suada e de unhas cravadas nas tuas costas.
Vês o sangue na cama? Todos os dias me esvaio um bocadinho mais... Encontro em qualquer desvario a coragem para arrancar de mim a vida que me transferes a cada investida mais cruel. Encontro sadicamente o meu amor, guardado nos confins de qualquer coisa à qual não sei dar nome. Da minha alma pouco sei, roubada que foi a modos rudes e desonestos.
Estamos escritos letra por letra nas cartas que o carteiro entrega atarefadamente, sem imaginar a dimensão das coisas que esses envelopes trazem lá dentro, mas da minha alma pouco sei.




The postman always rings twice (1946)

30 de setembro de 2009

O amor da minha vida

Fugiu. E eu continuo que nem uma criança a correr pelo bairro e a pôr-me por baixo do parapeito da tua janela, a espreitar com cuidado quando oiço a porta do quarto bater, para olhar para ti durante fracções de segundos, mesmo que vás só buscar uma coisa que te esqueceste em cima da cama. E quando sei que não estás faço o mesmo - olho para o espaço vazio e desarrumado e de repente, como fantasmas, aparecemos nós, emaranhados um no outro, ou tu com a cabeça no meu colo enquanto te rebento borbulhas, ou a beijares-me alienado um braço ou o pescoço enquanto vemos um filme. Também te revejo concentrado em livros, de tronco nu, comigo ao colo a dar-te mimos. E tu a ignorares-me, uma indiferença querida e despropositada, apaixonada quero eu dizer, ameninada.
É isso que me aparece à frente, como uma realidade paralela, fantasmagórica, enquanto olho o teu quarto e tu não estás. Como pelicula de um filme antigo, numa sequência cronologicamente alternada, nós a rodarmos num cinema imaginário.
Acordo para a vida quando o sino da igreja toca e sei que são horas de jantar. Por essa altura a minha mãe está furiosa comigo porque estou atrasada, mas o filme acabou tarde e não sou eu que decido essas coisas - digo-lhe eu.