Saio do quarto abafado sem rumo, pelo corredor fora, e decido virar na segunda à direita. Dispo-me. A pele colada sobre si mesma, algumas gotas de suor escorrem indecisas costas abaixo. Olho para o espelho e vejo uma cara que não conheço - imaginava-me de outra maneira, não sei se pior ou melhor. Ligo somente a torneira da água fria. Cada movimento é acompanhado de um turbilhão de pensamentos. Ponho primeiro a ponta do pé direito, firme no tapete enrrugado. Os dois lá dentro e a água vai-me fazendo festinhas. Sinto-me plena.
Projecto a cabeça para trás e deixo-me inundar pela àgua que sai agora do chuveiro. Não me dou ao trabalho de suster a respiração, de fechar os olhos nem tenho cuidado com os ouvidos. Sinto a água invandir-me as narinas, numa corrida desenfreada até à garganta, onde parece mais quente. Uma sensação de afogamento. Os olhos ardem e eu sem coragem de os fechar. Doí-me a alma.
Penso numa forma evasiva de te expulsar de mim e da minha cama; sei que ainda lá estás à espera de mais. Não me apetece.
A água fria, os olhos latejantes, o gorgolejar da água na garganta, uma banheira tão vazia quanto a casa de banho. Um orgulho ferido, uma cicatriz no coração. A forma evasiva, tu no quarto.
Sai, por favor.
2 comentários:
Passei para inteirar-me das novidade e deixar beijoca.
i like it :)
bem escrito ;D
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